A dança é nossa, a fama é deles: como o algoritmo apaga o criador brasileiro
Tem uma cena que se repete com uma frequência irritante: um vídeo de uma dança, um áudio, um jeito de falar que nasceu aqui no Brasil, na quebrada, no baile, no quintal de alguém — e de repente aparece lá fora, estampado no perfil de uma influencer americana com milhões de seguidores, sem um único acento no crédito. Sem um "@". Sem um "inspirado em". Nada.
Isso não é coincidência. É estrutura.
O que acontece antes da trend chegar nos EUA
Antes de qualquer coisa, vale entender o caminho que um conteúdo percorre até se tornar "viral global". No TikTok, esse trajeto costuma passar por uma fase invisível: a criação acontece em português, com referências locais, em perfis que o algoritmo ainda não decidiu impulsionar para além das bordas do país. O vídeo existe, circula entre brasileiros, ganha tração dentro de uma bolha que o próprio sistema delimita.
Aí alguém de fora reproduz. Às vezes com boa-fé, às vezes com plena consciência do que está fazendo. O detalhe é que esse alguém já tem audiência estabelecida, fala inglês — língua que o algoritmo historicamente privilegia — e está inserido num mercado que as plataformas monetizam com muito mais generosidade. O resultado é previsível: a versão cópia explode. A original some.
Foi exatamente isso que aconteceu com o "Joga o Broto", com variações do passinho do funk, com o estilo de edição caótica e humorística que virou febre nos Reels americanos meses depois de ter sido inventado por criadores do interior de São Paulo e do Rio. Nenhum crédito. Nenhum centavo.
O algoritmo não é neutro — e nunca foi
A narrativa que as big techs adoram vender é a do algoritmo como uma entidade imparcial, uma matemática fria que só quer "conectar pessoas ao que elas gostam". Mas algoritmos são feitos por pessoas, treinados com dados que refletem desigualdades históricas, e otimizados para gerar lucro — não justiça.
No caso do TikTok e do Instagram, há evidências documentadas de que conteúdos em inglês recebem distribuição orgânica muito superior a conteúdos em outros idiomas, inclusive o português. Um estudo da Mozilla Foundation publicado em 2023 já apontava inconsistências na moderação e distribuição por idioma e região. Criadores brasileiros relatam em fóruns e comunidades que vídeos idênticos — mesma edição, mesmo conceito — têm desempenho radicalmente diferente dependendo se a legenda está em português ou inglês.
Isso significa que, mesmo quando o criador original tenta alcançar um público maior, ele começa a corrida com uma desvantagem estrutural embutida.
Casos que ficaram na memória (e muitos que não ficaram)
O caso mais emblemático dos últimos anos foi o da dança do "Joinha" e de variações do funk melody que explodiram no exterior creditadas a influencers sem qualquer relação com o Brasil. Mas há outros menos comentados.
A coreografia que acompanhou a trend do "brega-funk suave" no final de 2022 foi replicada por pelo menos quatro criadores norte-americanos com audiências somadas de mais de 40 milhões de seguidores. A criadora original, uma jovem de Recife com cerca de 80 mil seguidores na época, tentou marcar os perfis que copiaram. Recebeu, em resposta, uma enxurrada de comentários hostis dizendo que ela estava "exagerando".
Essa hostilidade também faz parte do sistema. Quando o criador brasileiro tenta reivindicar o que é seu, frequentemente é acusado de drama, de tentar "cancelar" alguém, de ser ressentido. A narrativa se inverte e o prejudicado vira o vilão.
Monetização: o buraco mais fundo
Além do reconhecimento, tem a grana — ou a falta dela. O TikTok Creator Fund, principal mecanismo de remuneração direta da plataforma, paga valores absurdamente diferentes dependendo do país de origem do criador. Criadores americanos recebem, em média, entre 2 e 4 centavos de dólar por mil visualizações. Criadores brasileiros relatam receber menos de um décimo disso, quando conseguem acessar o programa.
E quando uma trend brasileira explode nos EUA, quem monetiza são os criadores americanos que a reproduziram — via Creator Fund, via brand deals com marcas que querem surfar a onda, via Spark Ads que impulsionam a versão copiada e não o original. O dinheiro circula num ecossistema do qual o criador brasileiro foi silenciosamente excluído antes mesmo de a festa começar.
O que os criadores estão fazendo (e o que falta)
Apesar de tudo, a resistência existe. Coletivos de criadores como o Pretas no Digital e iniciativas independentes de mapeamento de trends têm documentado casos de apropriação e pressionado plataformas por mais transparência. Alguns criadores brasileiros adotaram a estratégia de publicar sempre em inglês e português simultaneamente, tentando burlar o filtro algorítmico.
Outros partiram para o confronto direto: marcam os perfis que copiaram, mobilizam suas comunidades, fazem barulho. Às vezes funciona. Na maioria das vezes, o algoritmo já seguiu em frente e a trend já foi substituída por outra — provavelmente também originada aqui.
O que falta, de verdade, é pressão institucional. O Brasil tem um mercado digital gigantesco — somos o terceiro país com mais usuários no TikTok no mundo. Isso deveria dar poder de negociação. Mas enquanto o debate político sobre regulação de plataformas for travado nos bastidores e a sociedade civil não ocupar esse espaço com mais força, as big techs vão continuar operando segundo as próprias regras.
Criatividade não pode ser recurso extrativista
Há uma lógica colonial muito clara no que acontece com a criatividade brasileira no ambiente digital. O Brasil produz, o mundo consome, e o lucro fica com quem tem mais acesso às ferramentas de amplificação e monetização. É o mesmo padrão de séculos atrás, reembalado em interface bonita e notificações coloridas.
Reconhecer isso não é vitimismo. É diagnóstico. E diagnóstico é o primeiro passo pra mudar alguma coisa.
A próxima vez que você ver uma trend gringa que parece muito familiar, vale parar dois segundos e perguntar: onde isso começou? Quem criou? E por que essa pessoa não está no topo dos resultados quando você pesquisa?
As respostas, quase sempre, vão apontar pro mesmo lugar.