A vovó entrou no feed e não sai mais: como as matriarcas da periferia viraram fenômeno nas redes
Tinha tudo pra ser só um vídeo qualquer. O neto filmando o almoço, a câmera tremida, a iluminação péssima, a internet 3G engasgando no upload. Mas quando a dona Marlene apareceu no fundo da cozinha com aquele avental florido, perguntando pro bisneto "isso aí é o TikTok mesmo?", o Brasil inteiro parou. Em 48 horas, o vídeo tinha mais de dois milhões de visualizações. E a dona Marlene, 67 anos, moradora do Complexo do Alemão, ganhou quarenta mil seguidores sem entender direito o que era um seguidor.
Essa história se repete em mil variações pelas periferias do Brasil. E a Tchabagadi foi atrás desse fenômeno que ninguém planejou, mas que todo mundo ama.
O acidente mais bonito da internet brasileira
Não existe fórmula. Não existe estratégia de conteúdo por trás dessas aparições. O que existe é vida acontecendo na frente de uma câmera, e uma geração mais velha que nunca pediu pra estar ali, mas que quando chegou, chegou com tudo.
A Tia Nair, de Duque de Caxias, virou meme nacional depois de aparecer no canal do sobrinho dando uma aula não solicitada sobre como temperar frango. "Vocês dessa geração não sabe cozinhar, não," ela disse, olhando direto pra câmera com aquela cara de quem já viu muita coisa. O sobrinho, que tinha 80 mil seguidores na época, acordou no dia seguinte com 350 mil. E a Tia Nair? Ganhou um perfil próprio que hoje ultrapassa os 200 mil.
O que essas mulheres têm em comum é exatamente o que falta na maior parte do conteúdo digital: nenhuma performance. Elas não sabem o que é "engajamento". Não calculam o melhor horário de postagem. Não conhecem o conceito de nicho. E é justamente isso que o público não consegue resistir.
Algoritmo não aguenta autenticidade
Quem trabalha com marketing digital sabe que existe uma busca constante pelo "conteúdo autêntico". Marcas pagam fortunas pra parecer reais. Influenciadores treinam durante meses pra soar espontâneos. E aí aparece a Dona Benedita, de Fortaleza, reclamando da novela das nove enquanto o neto tenta gravar uma trend do Reels, e destrói qualquer coisa produzida com orçamento de seis dígitos.
A pesquisadora de cultura digital Camila Tavares, que acompanha esse movimento de perto, explica bem o que acontece: "Existe uma fadiga coletiva de conteúdo curado demais. Quando alguém que não está tentando aparecer aparece, o público sente. É como um respiro no meio de tanto produto embalado."
E o público da periferia, especificamente, reconhece nessas mulheres algo muito concreto: a própria avó. A própria mãe. O sotaque, o avental, o jeito de falar palavrão sem perceber, a sabedoria misturada com aquela inocência sobre o mundo digital. É espelho. É afeto. É pertencimento.
De coadjuvante a protagonista
O mais interessante desse fenômeno é que ele virou um movimento de mão dupla. Muitos criadores, especialmente os das periferias do Rio, São Paulo, Nordeste e Norte do país, perceberam que a presença das matriarcas de casa multiplicava o alcance dos vídeos de forma absurda. E começaram a incluir as avós e mães de forma mais intencional, mas sem perder a naturalidade.
O MC Diguinho, de Campinas, conta que a mãe dele, a Dona Fátima, apareceu num vídeo comentando uma letra que ele tinha escrito. "Ela falou que a letra tava bonita mas que eu precisava arrumar um emprego de verdade," ele ri ao lembrar. "Esse vídeo tem quatro milhões de views até hoje. Mais do que qualquer clipe que eu lancei."
Dona Fátima hoje tem canal próprio, onde faz receitas e fala sobre a vida na quebrada com uma franqueza que desarmou o Brasil. Ela não sabe usar o Instagram direito, posta foto de cabeça pra baixo às vezes, e o comentário mais curtido sempre é alguém dizendo "essa mulher é a minha avó, juro."
O que a indústria ainda não entendeu
Marcas ainda engatinham quando o assunto é trabalhar com esse perfil de criadora. Algumas já chegaram, claro — empresas de alimentos, produtos de limpeza, planos de saúde — mas ainda existe um preconceito velado sobre "profissionalismo" que faz com que muitas oportunidades passem longe dessas mulheres.
O que a indústria não entendeu ainda é que a Dona Marlene, a Tia Nair e a Dona Fátima têm algo que vale mais do que qualquer taxa de engajamento: confiança. Quando elas recomendam alguma coisa, parece que a sua própria avó está recomendando. E você compra, porque você confia na sua avó.
Além disso, essas mulheres representam uma parcela enorme da população brasileira que ainda se sente invisível nas telas. Ver uma senhora negra, gordinha, de avental, falando com sotaque nordestino e sendo amada por milhões é, em si mesmo, um ato político. Mesmo que ela não saiba disso.
A revolução que veio da cozinha
O Brasil tem uma longa tradição de subestimar o que vem da periferia, do interior, das margens. Por décadas, a mídia tradicional decidiu quem merecia espaço, quem tinha o visual certo, a fala certa, a história certa pra ser contada.
A internet derrubou essa porteira. E as avós entraram.
Elas chegaram sem pedir licença, do jeito que sempre fizeram tudo na vida: direto ao ponto, sem frescura, com aquela força tranquila de quem criou filho, pagou conta, sobreviveu ao que precisava sobreviver e ainda tem energia pra aparecer no TikTok do neto e dar aquela opinião que ninguém pediu mas todo mundo precisava ouvir.
A Dona Marlene, quando perguntada sobre o que achava de ter quarenta mil seguidores, respondeu com a naturalidade de quem nunca precisou de validação digital pra saber quem é: "Ah, é bonitinho. Mas o frango não vai se temperar sozinho, não."
E foi exatamente isso que o Brasil precisava ouvir.